A Ditadura Envergonhada Critical Thinking

Este texto apresenta alguns pontos centrais da trajetória da Editora Alfa-Omega de 1973, data de sua fundação, até os dias de hoje. Destacam-se os seus primeiros anos de atividade e observa-se o fato de a editora manter inalterada, até hoje, sua linha editorial voltando-se à divulgação do pensamento crítico. O processo de pesquisa se deu por meio de fontes bibliográficas, análise documental e entrevistas. O objetivo geral da pesquisa foi o de caracterizar a especificidade da Editora Alfa-Omega na indústria do livro no Brasil. O estudo inserese na chamada nova história social e cultural da Comunicação impressa, compreendendo o livro como um objeto multifacetado e multideterminado e buscando aproximar a história do livro da história das sociedades e das mentalidades coletivas.

Da Banca da Cultura à Alfa-Omega: percursos de um editor

A Editora Alfa-Omega foi fundada no bairro de Pinheiros, cidade de São Paulo, em janeiro de 1973, por Fernando e Claudete Mangarielo com o lema de publicar “o pensamento crítico brasileiro”. Seu recorte temático recai sobre: história, sociologia, política, filosofia, economia, clássicos do marxismo, pluralismo jurídico. O jornal Diário da Noite de 14 de março de 1973, em matéria sobre o início das atividades da Alfa-Omega, cita Fernando Mangarielo que destaca três pontos em relação à linha editorial: 1) ênfase no autor nacional; 2) a editora será “uma janela aberta para os escritores preocupados com a nossa realidade, com o Brasil de agora, com nosso processo econômico-político”; 3) a editora “se voltará para as necessidades do ensino superior em nosso país”. Essas três facetas se mantêm como eixos da atividade editorial da Alfa-Omega até os dias de hoje.

Inicialmente, em 1973, a editora se localizava na rua Cristiano Viana, 302, na residência do casal; posteriormente foi transferida para a Rua Lisboa, 502, e, mais tarde ainda, para número 489 da mesma rua, onde se encontra até hoje.

A denominação Alfa-Omega, segundo depoimento de Fernando Mangarielo, se deu por se tratar da “primeira e a última letra do alfabeto grego, que significa a luta dos contrários: pensamento e ação, alto e baixo, magro e gordo, pobre e rico; no caso nosso, é [...] pensamento e ação”. Apesar de ser usual associar-se o termo Alfa-Omega ao universo religioso cristão, devido à referência ao livro Apocalipse, 1, 4-8 “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o senhor” (CHEVALIER, GHEERBRANT, 2003, p.29), esse tipo de associação não estava presente nas intenções de Mangarielo ao escolher essa denominação, afirmou o editor em entrevistas concedidas aos autores deste artigo em 15 de maio e 19 de junho de 20131.

Notemos que no início da década de 1970 o Brasil vivia sob uma ditadura, instaurada pelo golpe de 1964, que promovia forte repressão contra qualquer manifestação de oposição, ao que se juntava o chamado “milagre econômico brasileiro”, o clima do Brasil “grande potência”, a política do “desenvolvimento acelerado” – “uma década em um ano”. Esse período foi chamado por Luiz Carlos Bresser Pereira no livro Desenvolvimento e Crise no Brasil,1930-1983 de “segundo ciclo industrial no Brasil” – o Produto Interno Bruto cresceu a uma taxa anual de 11,3% e o produto industrial a 12,7% – taxas que eram de 3,2% e 2,6% respectivamente de 1963 a 1967 e que chegam a 5,4% entre 1974 e 1981. O chamado “milagre econômico” perdurou até 1974, quando, “por vários fatores internos vinculados aos equívocos do processo de expansão e pelo fator exógeno do primeiro choque do petróleo, tem início um processo de desaceleração econômica que resultará na recessão de 1981” (REIMÃO, 1996, p.56).

É importante ressaltar que durante o “milagre econômico brasileiro” “ao êxito econômico não correspondeu progresso político algum. Pelo contrário, entendeu-se que a ditadura era, se não a causa, indiscutivelmente a garantia da prosperidade. O controle da imprensa desempenhou um papel essencial na cantata desse ‘Brasil Grande’ e na supressão dos conflitos que abrigava” (GASPARI, 2002, p.210).

Durante o “milagre econômico brasileiro”, nos primeiros anos da década de 1970, ultrapassa-se, pela primeira vez no Brasil a barreira da produção de mais de um livro por habitante ao ano:

Quadro 1 Relaçao entre a populaçao do Brasil e o número de exemplares de livros publicados no ano (dados em milhões) 

AnoPopulação do Brasil (em milhões)Total de exemplares de livros publicados no ano (em milhões)Relação de exemplares de livros por habitante ao ano
196478,851,90,6
196992,268,50,7
197195,980,10,8
197298,6136,01,3
1973101,4136,01,3
1974104,2144,71,3
1978116,3186,71,6

Fonte: dados dos Censos Demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (REIMÃO, 1996, p.30 e 58).

Quando em 1973 fundou a Editora Alfa-Omega, Fernando Mangarielo já tinha experiência com livros: havia trabalhado na área comercial de várias editoras; havia sido proprietário, por um breve tempo, de uma livraria e, destacadamente, em 1968, ele atuou como livreiro na Banca da Cultura, livraria fundada em fevereiro de 1967 e que se manteve em funcionamento no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP) até 17 de dezembro de 1968, quando tropas do II Exército invadiram, esvaziaram e ocuparam o Conjunto, prendendo todos que lá se encontravam.

O fato de ter sido livreiro na Banca da Cultura do CRUSP aproximou Mangarielo de intelectuais e de docentes que atuaram como interlocutores para a constituição da linha editorial da Alfa-Omega. Entre eles destaca-se Jacob Bazarian, que convidou Mangarielo para trabalhar na revista Armênia e com quem passou a ter um relacionamento intelectual que se manteve por três décadas.

Fernando Mangarielo em entrevista aos autores explicou assim a proximidade com estes intelectuais:

[...] a Alfa-Omega surge em janeiro de 1973. O primeiro livro foi A Ideia Republicana no Brasil através dos Documentos. São 16 documentos da fase republicana, inclusive um de que só se ouvia falar, mas não se conhecia, que estava na Torre do Tombo, em Lisboa, [...] O livro foi organizado pelo Reynaldo Xavier Carneiro Pessoa, que foi meu professor do ginásio no Recife. E foi meu professor de História da União Soviética no curso da USP. [...]

O livro do professor Reynaldo foi muito gratificante para mim. Porque ele balizou, ele norteou a essência da editora. Foi um livro sistematicamente adotado na USP, porque era usado no curso que ele dava na História. [...] O José Sebastião Witter, professor de História da USP, nos apoiou, foi uma pessoa que nos indicou grandes livros, como História e teoria dos partidos políticos, do Afonso Arinos. Esse ponto é muito positivo na Alfa-Omega, o apoio dos intelectuais. Autores como Florestan Fernandes, Victor Nunes Leal, Barbosa Lima Sobrinho, Sérgio Buarque de Holanda. [...] Ainda entre os primeiros lançamentos está o livro do Sedi Hirano [Castas, estamentos e classes sociais: Introdução ao pensamento de Marx e Weber]. Ele era meu vizinho aqui próximo. Lembro com muito carinho dele, também. [...] Eram autores do mundo acadêmico. [...] Eles perceberam, de imediato, a flexibilidade da Alfa-Omega e a vocação, o diapasão em que eu queria atuar2.

A proximidade com docentes da Universidade de São Paulo fez com que em seus quatro primeiros anos de atuação, de 1973 a 1976, a Editora Alfa-Omega tivesse, entre os 44 títulos publicados, 16 de autoria de docentes da USP, em um momento em que o “meio universitário era um importante setor de oposição ao regime” (MAUÉS, 2013, p.18). Entre esses títulos, destaquemos: Castas, estamentos e classes sociais: Introdução ao pensamento de Marx e Weber, de Sedi Hirano; Universidade brasileira: Reforma ou revolução?, de Florestan Fernandes; Energia elétrica e capital estrangeiro no Brasil, de Catullo Branco; Sociologia e sociedade no Brasil, de Otavio Ianni e A luta pela industrialização no Brasil, de Nícia Vilela Luz.

Ressaltemos que os proprietários da Alfa-Omega, que atualmente estão planejando a mudança de endereço da sede da editora, não dispõem de uma reserva técnica de todos os livros publicados. A listagem das publicações dos primeiros anos foi elaborada pelos autores deste artigo a partir de várias matérias de diferentes jornais, de consultas a acervos de bibliotecas e de entrevistas com Fernando e Claudete Mangarielo.

Além desses títulos de autores ligados à USP, deve-se destacar outros de autores editados nesses primeiros quatro anos de atividade, como Barbosa Lima Sobrinho, Victor Nunes Leal, Virgínio Santa Rosa, Heitor Ferreira Lima e Leôncio Basbaum. Se analisarmos a maior parte dos títulos publicados por estes dois grupos de autores, ressalta a preocupação com a análise da história contemporânea brasileira a partir de um ponto de vista crítico e preocupado com o interesse nacional. Há também uma aproximação, considerando-se a posição política de parte desses autores, com setores da oposição à ditadura, por um lado, e com ideias vinculadas ao campo político da esquerda, por outro.

E note-se que, ao lado dos inéditos, há várias reedições de títulos então esgotados, como é o caso de obras de Odilon Nogueira de Matos, Nícia Vilela Luz, Sérgio Buarque de Holanda, Maria Izaura Pereira de Queiroz, Barbosa Lima Sobrinho (A verdade sobre a Revolução de Outubro de 1930; 1975), Victor Nunes Leal (Coronelismo, enxada e voto; 1975), Virgínio Santa Rosa (O sentido do tenentismo; 1976) e Leôncio Basbaum (História sincera da República; 1976).

Devemos ainda salientar que em1975 Fernando Mangarielo publicou o primeiro volume das obras escolhidas de Marx e Engels (serão três volumes no total). Mas o faz tomando certas precauções. Por exemplo, o título do livro é apenas Textos (e não Obras Escolhidas). Além disso, utiliza o selo Edições Sociais3, e não Alfa-Omega. Mangarielo explica esta opção:

A publicação de Marx nas Edições Sociais, com o nome Textos, foi uma coisa motivada pelo terror, pelo medo. [...] eu montei de forma inversa [a ordem dos textos nos volumes], o “Manifesto do Partido Comunista” aparece no volume I da edição oficial e nos Textos aparece no volume III, no último. Os textos mais conhecidos eu botei no volume III, fora da data, fora da cronologia original, era uma maneira de enganar a censura4.

A segunda edição já foi feita com o título Obras Escolhidas e com o selo Alfa-Omega.

Censura e ‘best-sellers’

Os livros censurados – 4 cantos de pavor e Em câmara lenta

Dois livros publicados pela Editora Alfa-Omega foram censurados durante a ditadura militar brasileira: 4 cantos de pavor e alguns poemas desesperados, de Álvaro Alves de Faria, publicado em 1973, e Em câmara lenta, de Renato Tapajós, publicado em 1977.

4 cantos de pavor: história de um livro censurado

Em 1965 e 1966, um grupo de jovens decidiu declamar poesias na rua, no centro da cidade de São Paulo, no Viaduto do Chá. A cena é assim descrita por Fernando Góes na capa do livro de Álvaro Alves de Faria: “deparei com uma pequena aglomeração. Como era noite, não podia ser um camelô [...]. Como também já estivéssemos dentro das normas da Revolução, não podia ser um comício político”. Fernando Góes perguntou-se: “Então, o que era?”, e concluiu: “Aí tive a surpresa de ver que [...] eram uns moços recitando versos. Lembrei, então, o que lera nos jornais a respeito de jovens poetas que resolveram levar a poesia ao povo nas praças e nas ruas, nos bares e nos colégios [...]” (GOES, 1973, contracapa).

Um destes jovens declamadores era Álvaro Alves de Faria, poeta cuja primeira obra, Noturno – Maior, havia sido publicada em 1963; seguida de Tempo final, 1964, e O sermão do Viaduto, 1965.

Em 1973, Álvaro Alves de Faria coletou e organizou seu trabalho poético sob o título 4 Cantos de pavor e alguns poemas desesperados. No livro encontram-se poemas como:

quem responderá pela grande noite que percorre o mundo,

quem falará de dentro dos túneis,

quem mandará calar os que não erguem,

quem findará o cansaço dos tristes

[...]

Quem dirá não aos que fazem as bulas do horror,

quem dirá não aos assassinos da esperança,

quem dirá não aos donos das leis,

quem dirá não aos donos da terra

[...]

E quem dirá sim à tristeza operária

e quem lembrará que as flores precisam nascer? (FARIA, 1973, p.93-94).

Segundo Lygia Fagundes Telles (1973, p.18), no prefácio à obra, 4 Cantos de pavor e alguns poemas desesperados “é um livro impregnado de forte sopro lírico mas o lirismo de Álvaro de Faria é sem sentimentalismo e sem piedade, lirismo agudo e enérgico de quem aceita o desafio e de olhos enxutos embora feridos nos faz sentir na carne a carne de sua palavra”.

A história editorial de 4 Cantos de pavor e alguns poemas desesperados é bastante peculiar: os originais foram enviados pelo autor para o Departamento de Censura e Diversões Públicas, DCDP, e recebeu veto censório com base na afirmação de haver versos no livro que “atentam contra a moral e os bons costumes”. Sem ter conhecimento do veto, o livro foi editado em 1973 pela editora Alfa-Omega, com uma tiragem inicial de quinhentos exemplares. Houve, a seguir, uma segunda edição (REIMÃO, 2011, p.51).

Em câmara lenta: censura e prisão

O romance Em câmara lenta foi lançado em maio de 1977 e tinha como atração o fato de ter sido uma das primeiras obras de ficção a falar da guerrilha urbana no Brasil. Seu autor, Renato Tapajós, havia sido militante da organização Ala Vermelha, que pregava a luta armada para a derrubada da ditadura, e estivera preso por este motivo de 1969 a 1974. O romance foi escrito quando Tapajós ainda se encontrava preso em São Paulo. Assim, o livro não só trata da experiência da luta armada como foi escrito por uma pessoa que participou dessa luta5.

Além de apresentar uma visão de quem viveu diretamente essa realidade, o livro faz também uma lúcida autocrítica dessa opção. A narrativa é construída a partir da descrição detalhada de uma cena de tortura sofrida por Aurora Maria Nascimento Furtado (sem mencionar seu nome), militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) morta em 10 de novembro de 1972 pelos órgãos de repressão.

Mas o livro vai muito além da denúncia da tortura e se propõe a discutir de modo aprofundado a opção pela luta armada e suas consequências: “É uma reflexão emocionada porque tenta captar a tensão, o clima, as esperanças imensas, e o ódio e o desespero que marcaram essa extrema tentativa política que foi a guerrilha”, diz o autor. “É, sobretudo, uma discussão em torno da contradição que se colocou para os militantes, em determinado momento, entre compromisso moral e opções políticas que se delineavam [...] é um balanço e uma autocrítica”, complementa Tapajós (TAPAJÓS, 1977, p.X).

Todavia, o regime e sua censura não viram o livro dessa forma, mas sim como uma incitação à luta armada – uma leitura no mínimo equivocada da obra. Por esse motivo o autor foi preso em julho de 1977, pouco mais de dois meses após o lançamento da obra. O curioso é que a obra somente foi proibida em 13 de agosto (ARAGÃO, 2013, p.68). Trata-se de caso único de autor preso durante a ditadura militar por causa do conteúdo de um livro. O autor foi também processado pela edição do livro, e o editor, Fernando Mangarielo, juntamente com sua esposa, Claudete, foram chamados para depor no processo, num claro ato de intimidação. Tapajós ficou preso cerca de um mês em São Paulo. Mangarielo também chegou a ficar detido em função da edição do livro.

Interessante destacar que Tapajós procurou inicialmente as editoras Ática e Civilização Brasileira para a edição da obra, mas ambas recusaram a empreitada por considerar que o lançamento do livro era politicamente arriscado naquele momento (RIDENTI, 2000, p.154). Somente após estas duas frustradas tentativas é que Tapajós procurou a Alfa-Omega, que aceitou a proposta e o desafio de editar o livro.

Mangarielo recorda que:

o caso com o Renato Tapajós foi o mais forte de repressão da editora, foi o mais truculento de todos que eu conheci, com meus colegas também. Prenderam o autor. [...] O caso teve muita repercussão. E, ao fim, tornou a editora mais conhecida. Sobretudo pelos aficionados do pensamento crítico. Mas para mim me deu uma experiência muito dolorida no bolso, porque foi o livro meu mais xerocado e não vendido. A primeira edição foi de 3 mil, e a segunda foi de 2 mil e ainda tenho exemplares, para lhe dar uma ideia, mas eu posso dizer que ele reverberou mais do que vendeu6.

‘A Ilha’ e ‘Olga’: dois ‘best-sellers’

A Editora Alfa-Omega conheceu dois grandes sucessos comerciais: A Ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro e Olga, ambos de autoria de Fernando Morais.

Nas palavras de Fernando Mangarielo, nas já referidas entrevistas aos autores:

O primeiro livro que teve um grande sucesso de vendas foi A Ilha, do Fernando Morais, sobre Cuba... Tivemos dois livros atípicos no Brasil, os 265 mil exemplares vendidos do Olga e os 125 mil de A Ilha, ambos do Fernando Morais7. [...] Quando saiu A Ilha, em 1976, o Fernando Morais era jornalista da Veja. Mas eu já o conhecia de antes, da revista Visão, onde trabalhava o [Vladimir] Herzog. Havia certa expectativa em relação ao livro, por causa das viagens que o Fernando Morais tinha feito e da maneira como ele escreveu. [...] Fizemos também uma edição de bolso de A Ilha, em papel jornal, com um encarte de fotos, e também com um folheto dele, pois ele foi candidato a deputado8. E ganhou.

O sucesso de A Ilha me deu mais capacidade financeira [...] inclusive eu aumentei o número de funcionários. Chegamos a ter 24 funcionários. [...] Subsidiada por isso. Já o Olga [...] foi uma década depois. [...] O Fernando Morais pediu uma ajuda nossa, nós pagamos a passagem para ele ir para a Europa e ele fez o livro, tá no contrato, foi assim que foi feito. O Olga foi o livro que mais vendeu, tanto em exemplares como em termos de tempo, quatro anos e meio.

Sobre a especificidade da edição de Olga, Fernando Mangarielo explica:

Olha, eu criei uma técnica como editor [...]... Eu sou o único editor que, no caso do livro Olga, tenho dois fotolitos do próprio livro. Mandava rodar 20 mil numa gráfica e 20 mil noutra. Porque antigamente as gráficas brasileiras tinham um defeito: tinham capacidade de imprimir, mas não tinham de acabamento, dobrar, montar etc. [...]. Um dia eu cheguei a comandar três edições, 20 mil, 20 mil e 20 mil9.

A ilha: um olhar retrospectivo

Caracterizada como editora de oposição (MAUÉS, 2013) a Alfa-Omega atraiu autores que tinham posicionamento crítico em relação à ditadura, com destaque, de um lado, para intelectuais ligados à USP, e, de outro, a jornalistas que, mesmo atuando na grande imprensa, expressavam pontos de vista críticos utilizando as brechas existentes. É o caso de Fernando Morais, autor de A Ilha, que, como afirma Mangarielo, havia trabalhado na revista Visão em um período em que a área de cultura teve Vladimir Herzog na direção e um grupo de jornalistas ligados ao pensamento crítico. E a reportagem que deu origem ao livro foi realizada por Morais para a revista Veja, da Editora Abril, na qual ele trabalhava na ocasião.

De acordo com Lopes e Rodrigues (2012, p.6),

A Ilha (um repórter brasileiro no país de Fidel Castro), lançado em 1976, representou um de seus maiores mergulhos no campo do Jornalismo Literário. A obra alcançou grande sucesso, tornando-se um ícone da esquerda brasileira nos anos 70 e foi a partir de então que o jornalista abandonou a rotina das redações e passou a se dedicar aos livros.

A repercussão do livro, que se inclui no que denominamos Literatura política, fez parte do ambiente da abertura política da segunda metade dos anos 1970, principalmente por apresentar uma leitura inovadora para a época de um tema, a revolução cubana, que estava no topo dos assuntos proibidos pelo regime. “Milhares de brasileiros desejavam informações fidedignas sobre Cuba, e isto foi o que A Ilha trouxe, junto com uma visão positiva a respeito dos resultados da implantação de um regime socialista, trazido pela Revolução Cubana” (GALVÃO, 2005, p.354). Desde a presença de Fernando Morais em Cuba, país com o qual o Brasil não mantinha relações diplomáticas, até a publicação do livro, criou-se uma expectativa que favoreceu a circulação da obra, o que se confirmou rapidamente e a transformou em best-seller.

Muita coisa aconteceu nessas três décadas e meia que nos separam da reportagem realizada por Fernando Morais em Cuba e da publicação do livro pela Alfa-Omega. Naquele momento havia alguma perspectiva da derrotada ditadura e da construção de uma nova sociedade, fatores essenciais para que o livro se tornasse um best-seller, atraindo leitores ávidos por relatos de utopias alternativas à realidade ditatorial brasileira. A ditadura, derrotada, deu lugar à luta por projetos para o Brasil que em grande medida decepcionaram aqueles que se identificavam com a revolução cubana e outros movimentos de recusa ao capitalismo. Nesse sentido, 30 anos depois de sua publicação, o livro deixa de expressar aqueles aspectos que fizeram dele um sucesso de vendas e referência para o pensamento crítico dos anos 1970. Seguindo essa linha de análise, Lopes e Rodrigues (2012, p.10) afirmam que, “[...] embora o livro A Ilha fale de uma Cuba que não existe mais, a obra guarda seu valor até hoje, três décadas após sua publicação, como um documento de registro sócio-histórico do país [...]”.

Desde 2001 o livro faz parte do catálogo da Editora Companhia das Letras, que divulga a seguinte informação sobre o livro:

A ilha teve trinta edições esgotadas, passou mais de sessenta semanas nas listas de mais vendidos e foi traduzido na Europa, Estados Unidos e América Latina. Polêmico, o livro foi acusado de fazer a apologia da Revolução Cubana e chegou a ser apreendido pela polícia em dois estados. Naquela época o isolamento de Cuba, para os brasileiros, era total. Com o golpe militar de 1964, o Brasil rompera relações com o regime de Fidel Castro, repetindo o que já fizera quase toda a América Latina. Os passaportes brasileiros passaram a ostentar a advertência: “Não é válido para Cuba”.10

‘Olga’: uma história de sucesso editorial

Após o sucesso de A Ilha, a Alfa-Omega lançou outros três livros de Fernando Morais antes de Olga: em 1980 apareceram os livros Socos na porta e Não às usinas nucleares: ação popular movida contra o presidente da República pelo deputado Fernando Morais; e, em 1982, Primeira página: as melhores entrevistas feitas por Fernando Morais. Os dois primeiros trazem discursos e intervenções de Morais na Assembleia Legislativa de São Paulo, e o último, entrevistas realizadas pelo jornalista.

Além desses, em 1981 fora editado o livro Freguesia do Ó: o inquérito que desmascarou as brigadas de Paulo Maluf, que trazia o relatório da Comissão de Inquérito presidida por Morais na Assembleia paulista sobre violências patrocinadas pelo então governador nomeado do Estado.

Isso mostra que houve um esforço do editor Mangarielo para, por um lado, produzir obras do autor e mantê-lo vinculado à Alfa-Omega, e, por outro, para capitalizar o máximo possível o sucesso de A Ilha. Tal esforço teve êxito, pois a edição de Olga, em outubro de 1985, representou o segundo grande sucesso de vendas da editora – ainda maior que o de A Ilha –, dessa vez com um livro de caráter biográfico, mas que era acima de tudo uma grande reportagem que iluminava momentos fundamentais da trajetória de uma das personagens mais simbólicas das esquerdas brasileiras: Luís Carlos Prestes.

Olga “narra a tragédia de Olga Benario, a judia alemã, membro do serviço secreto militar soviético, emissária do Komintern para atuar no Brasil e que foi mulher de [...] Prestes”. A alemã “foi entregue, depois de presa pela polícia política do ditador Vargas, e grávida, aos nazistas, em 1936. Nesse mesmo ano, daria à luz na prisão de Barnimstrasse uma filha, Ana Leocádia Benario Prestes [...]”. Não bastasse isso, “Mais tarde seria levada para o campo de concentração de Ravensbrück, e dali retirada para morrer na câmara de gás de Bernburg, em 1942” (GALVÃO, 2005, p.355). O livro trazia muitas informações novas sobre a dramática história de Olga e de sua perseguição e morte, e também da vida e da militância política de Prestes desde os tempos da Coluna Prestes até o final do Estado Novo. A ligação entre Olga e Prestes é detalhada no livro, que apresenta ainda informações inéditas sobre a organização do derrotado levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935.

Walnice Galvão classifica o livro como parte do “novo biografismo”, gênero que em seu início tinha como características básicas abordar as vidas pouco divulgadas “de brasileiros ou de pessoas de interesse crucial para a história do Brasil” e defender “causas progressistas” (GALVÃO, 2005, p.356).

Após três anos de pesquisas, o livro foi lançado com 20 mil exemplares de tiragem na primeira edição e obteve grande sucesso de vendas, alavancando novamente, do ponto de vista comercial, a Alfa-Omega. Ainda em 1985, o livro já estava em sua 5ª edição e havia vendido mais de 55 mil exemplares. Em 1987, na 14ª edição, passava dos 235 mil exemplares11. E, como já vimos, Mangarielo afirma que no total o livro vendeu 265 mil exemplares enquanto foi editado por ele.

No final dos anos 1980 divergências comerciais levaram a que Morais não renovasse o contrato de edição de Olga com a Alfa-Omega. O rompimento entre Mangarielo e Morais deveu-se a questões contratuais referentes a direitos autorais da obra e à sua negociação com outros países e para a adaptação cinematográfica. Para Mangarielo, o contrato deixava claro que tais negociações deveriam ser feitas pelo editor e não pelo autor. “Então, ele não soube contemporizar, no sentido de buscar um entendimento antes de mais nada, ele tentou tomar pra si”, diz Mangarielo.

Tal situação fez com que no começo de 1988 Morais assinasse contrato com a editora Companhia das Letras para a edição de seu próximo livro, Chatô, o rei do Brasil, uma biografia de Assis Chateaubriand. Na época, o contrato foi considerado “o mais audacioso já assinado no país” entre um escritor e uma editora, por garantir ao autor uma alta remuneração (PRADO, 1988, p.35).

Morais pouco fala, ao menos publicamente, sobre o rompimento com a Alfa-Omega, mas o fato é que suas obras não foram mais reeditadas por Mangarielo desde então. Tanto A Ilha como Olga passaram desde o começo dos anos 1990 a ser publicadas pela Companhia das Letras.

Outros títulos: um catálogo heterogêneo de oposição

A história da editora Alfa-Omega é longa e complexa. Durante seus mais de 40 anos de atuação a editora publicou títulos muito variados. A diversidade dos títulos publicados pela Alfa-Omega encaixa-se em uma unidade ideológica: a editora publica “o pensamento crítico”. A Alfa-Omega posicionou-se como editora de oposição, seguindo uma trajetória em muito identificada com o pensamento marxista, particularmente aquele mais próximo ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas sem sectarismo, tendo editado também alguns títulos de inegável vinculação ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Um dos pensadores que mais influenciaram a linha da editora foi o filósofo Jacob Bazarian, que manteve vínculos com a URSS e com o pensamento marxista, e que era ligado ao editor Mangarielo por um forte vínculo de amizade. Mangarielo o chama, até hoje, de seu mestre.

De acordo com Flamarion Maués (2013, p.33-34) a Alfa-Omega, nos anos 1974-1984 era uma das 40 editoras de oposição que publicavam obras caracterizadas como Literatura política; relevante destacar que entre as 40 editoras havia 32 micro ou pequenas, e apenas oito médias ou grandes, sendo que a Alfa-Omega está entre estas últimas, ao lado de Brasiliense, Civilização Brasileira, Codecri, Global, Paz e Terra, Vozes e Zahar.

Algumas observações finais

A Editora Alfa-Omega mantém-se em atividade desde 1973. A partir da segunda metade dos anos 2000, apenas os proprietários trabalham regularmente na empresa. As ferramentas digitais têm sido grandes aliadas na manutenção da editora. No que diz respeito à tiragem, são impressas inicialmente pequenas quantidades de cada título e, se necessário, cópias suplementares são feitas no sistema de print on demand, impressão por demanda – impressão, geralmente em pequena quantidade de exemplares, a partir de arquivos digitais previamente armazenados. No aspecto da distribuição e comercialização a principal ação da editora é enviar regularmente a uma grande lista de endereços eletrônicos informações sobre suas publicações; é possível adquirir exemplares por telefone e por internet. Além disso, a editora também pretende produzir alguns de seus livros na versão eletrônica (ebook).

Notemos que do ponto de vista empresarial a manutenção de uma editora de médio porte é mais difícil se comparada tanto àquelas de pequeno porte quanto às de grande porte. Observando a produção de livros comerciais em Londres e Nova York no início do século 21, John B. Thompson faz uma constatação que pode ser, com os devidos cuidados e ajustes, extrapolada para outros períodos da história da edição: as grandes editoras têm vantagens devido às grandes tiragens; as pequenas editoras se ajudam mutuamente; já “ter porte médio no campo das publicações comerciais é, de certa forma, a coisa mais difícil” (THOMPSON, 2013, p.191). As editoras de porte médio não se beneficiam da economia de favores que une as de porte pequeno, nem têm os recursos das grandes corporações, ou seja, as editoras de porte médio, comparativamente às de outras escalas, são aquelas que têm as maiores dificuldades para sua manutenção.

Tais dificuldades certamente foram muito marcantes para uma editora como a Alfa-Omega, que viveu momentos de grande êxito editorial e comercial, com dois grandes best-sellers, que possibilitaram, em certos períodos, a produção de um volume significativo de novos títulos a cada ano e um movimento comercial importante; mas que, a partir de 1990, teve uma grande redução em seu volume de vendas.

Um olhar nos mais de 40 anos de atividade da Editora Alfa-Omega capta de maneira indubitável a sua persistência em uma linha ideológica claramente marxista e de esquerda sem alterála ao “gosto do mercado no momento”. De maneira coerente, atualmente títulos voltados para a reflexão sobre Direito de um ponto de vista marxista são um dos destaques da empresa. Nessa vertente são encontrados títulos como Direito Internacional: para uma crítica marxista, de Júlio da Silveira Moreira, e Direitos Humanos na perspectiva de Marx e Engels, de José Damião de Lima Trindade.

Fernando e Claudete Mangarielo são exemplos de produtores culturais de resistência e persistência, mantendo-se fieis a uma linha editorial engajada à esquerda, mesmo que isso represente certa contenção na expansão comercial de sua editora, o que mantém o perfil da empresa como editora de oposição – agora não mais oposição à ditadura, mas sim ao pensamento e à ideologia dominante –, com sua trajetória empresarial subordinada às finalidades políticas que orientaram sua criação e percurso. Atuações como as de Fernando e Claudete Mangarielo, editores que divergem das tendências dominantes no mercado livreiro, propiciam a promoção e manutenção da bibliodiversidade, da disponibilização de títulos de diversas, diferentes e até mesmo antagônicas posturas, ideias e opiniões em uma convivência necessária à constituição e manutenção de uma sociedade democrática.

Anexo 1 – Alfa-Omega – primeiros títulos: títulos publicados de 1973 a 1976

A editora não dispõe de um acervo de reserva técnica. Esta listagem foi elaborada a partir de várias matérias de diferentes jornais, de consultas a acervos de bibliotecas e de entrevistas com Fernando e Claudete Mangarielo.

  • 1.A ideia republicana no Brasil através dos documentos (1973), Reinaldo Xavier Carneiro Pessoa (org.)

  • 2.Intuição heurística: uma análise científica da intuição criadora (1973), Jacob Bazarian

  • 3.4 Cantos de pavor e alguns poemas desesperados (1973), Álvaro Alves de Faria

  • 4.Café e ferrovias (2ª. ed.) (1974), Odilon Nogueira de Matos

  • 5.Castas, estamentos e classes sociais: Introdução ao pensamento de Marx e Weber (2ª. ed.) (1974), Sedi Hirano

  • 6.Política e segurança. Força Pública do Estado de São Paulo: fundamentos históricos-sociais (1974), Heloisa Rodrigues Fernandes

  • 7.História e teoria dos partidos políticos no Brasil (2ª ed.) (1974), Afonso Arinos de Melo Franco (sobrinho)

  • 8.Condicionamento verbal: pesquisa e ensino (1974), Geraldina Porto Witter, Maria Cecília Manzolli e Euza Maria de Rezende Bonamigo

  • 9.Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana (1975), José Carlos Mariátegui

  • 10.A verdade sobre a Revolução de Outubro de 1930 (2. ed.) (1975), Barbosa Lima Sobrinho

  • 11.Universidade brasileira: Reforma ou revolução? (1975), Florestan Fernandes

  • 12.Estatística básica para ciências humanas (2. ed.) (1975), Bernadete Gattie Nagib L. Feres

  • 13.Ciência, ensino e aprendizagem (1975), Geraldina Porto Witter

  • 14.Energia elétrica e capital estrangeiro no Brasil (1975), Catullo Branco

  • 15.Sociologia e sociedade no Brasil (1975), Otavio Ianni

  • 16.Violência: uma análise do homo brutalis (1975), José Pereira

  • 17.Coronelismo, enxada e voto (1975), Victor Nunes Leal

  • 18 a 20.Textos I (1975) II (1976) e III (s/d) (Obras escolhidas), Karl Marx e Frederich Engels (selo Edições Sociais)

  • 21.A luta pela industrialização no Brasil (1975), Nícia Vilela Luz

  • 22.Escravidão africana no Brasil (3ª ed.) (1975), Mauricio Goulart

  • 23.O sentido do tenentismo (3ª ed.) (1976), Virginio Santa Rosa

  • 24 a 27.História sincera da República, volumes 1, 2, 3 e 4 (1976), Leôncio Basbaum

  • 28.Monções (2ª. ed.) (1976), Sergio Buarque de Holanda

  • 29.A tecnocracia na história (1975),Carlos Estevam Martins

  • 30.Uma vida em seis tempos (memórias) (1976), Leôncio Basbaum

  • 31.Mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios(2ª ed.) (1976), Maria Izaura Pereira de Queiroz

  • 32.Três industrialistas brasileiros: Mauá, Rui Barbosa, Roberto Simonsen (1976), Heitor Ferreira Lima

  • 33.Para te comer melhor (1976), Eduardo Gudino Kiefler

  • 34.A luta pela modernização da economia brasileira (1976),Helio Duque

  • 35.A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro (1976) (1ª ed. agosto 1976, 6ª ed. janeiro 1977), Fernando Morais

  • 36.Quatro-olhos: romance (1976), Renato Pompeu

  • 37.O Túnel (1976), Ernesto Sabato

  • 38.Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil (1976), Sergio Silva

  • 39.Estado e partidos políticos no Brasil (1930-1964) (1976), Maria do Carmo Campello de Souza

  • 40.O cérebro consciente (1976), Steven Rose

  • 41.Tango fantasma (1976), Márcia Denser

  • 42.Testamento político de D. Luis da Cunha (1976), Nanci Leonzo (Nota introdutória)

  • 43.Assim escrevem os gaúchos (1976), Janer Cristaldo (org.)

  • 44.Assim escrevem os catarinenses (1976), Emanuel Medeiros Vieira (org.).

Referências

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Entre 1969 e 1973, a tortura de presos políticos tornou-se política do Estado e a meta do governo era o aniquilamento da esquerda armada. A ditadura escancarada, segundo volume da série de Elio Gaspari sobre os “anos de chumbo”, trata desse período, o mais violento do regime militar.

Esta reedição de A ditadura escancarada atualiza informações sobre a guerrilha do Araguaia, um projeto levado para a região amazônica pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B), que pretendia enfrentar a ditadura a partir de uma guerra revolucionária popular saída do campo.

Ao tratar das sevícias, Gaspari diz que “o regime fazia da tortura de presos seu instrumento primordial de investigação, vangloriava-se de seus resultados e não pretendia mudar de posição”. De 1964 até 1968, foram apresentadas 308 denúncias de tortura por presos políticos nos tribunais militares do país. Em 1969, elas somavam 1.027, chegando a 1.206 em 1970.

Essa linha, imposta pelo presidente Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), corria paralela a uma forte expansão econômica em todo o país. Em 1973, auge da repressão, o PIB brasileiro crescia 14%, índice nunca antes registrado. Era o chamado “milagre econômico”. O “milagre econômico” e os “anos de chumbo” foram simultâneos, mostra Gaspari no livro: “Ambos reais, coexistiram negando-se. Quem acha que houve um, não acredita (ou não gosta de admitir) que houve o outro”.

A ditadura escancarada compõe, com o primeiro livro da série de Gaspari, A ditadura envergonhada, o conjunto intitulado As ilusões armadas. Um segundo conjunto, denominado O sacerdote e o feiticeiro, reúne as obras A ditadura derrotada e A ditadura encurralada. A ditadura acabada¸publicado em 2016, é o volume final da coleção.

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